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Paraíba, 04/03/2010
Deus e as tragédias da vida

          No ano de dois mil e três, se não me falha a memória, gigantescas ondas se levantaram em mares asiáticos, mais precisamente na Indonésia, ceifando a vida de mais de trezentas mil pessoas. Era o tsunami espalhando destruição e morte por onde passava. Este ano em nosso país, na maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, em plena transição de um ano para outro, famílias inteiras choraram e ainda estão chorando a morte de inúmeros entes queridos que, de uma hora para outra, foram tragados pela força irresistível de chuvas que derrubaram encostas, provocaram inundações e, semelhantemente ao tsunami, também espalharam dor, sofrimento e morte por onde passaram. Para completar esse dantesco quadro de tragédias, o Haiti, o mais pobre país das Américas, é sacudido por um terremoto que, à luz de estatísticas ainda inconclusas, já matou mais de cem mil pessoas e deixou mais de um milhão de desabrigados.


            Diante de episódios catastróficos como esses, e de outros tantos que certamente ainda se abaterá sobre a humanidade pecadora, uma invariante indagação tem emergido da caída e especulativa natureza humana e se expressado da seguinte forma: onde estava Deus que não impediu a consumação de flagelos tão terríveis? Outros, requentando velhos e falsos dilemas teológicos, têm insistido em asseverar que Deus não pode ser Bom e Todo-Poderoso ao mesmo tempo. Se é Bom, não pode ser Todo-Poderoso, haja vista que não é capaz de colocar um ponto final na escalada triunfante do mal que assola a terra. Se é Todo-Poderoso, não é Bom, dado que dispondo de poder suficiente para erradicar de vez a maldade do mundo, prefere, inexplicavelmente, não fazê-lo. Outros ainda, emergidos dos arraiais evangélicos e insistindo em continuar se autoproclamando cristãos chegam, pasmemos todos, a dizer que Deus nem sequer sabia que tais coisas iriam ocorrer; que Deus, que pena, foi tomado de grande surpresa diante dos fatos aqui postos em tela.


            Despido de Sua onisciência e soberania, a Deus resta, tão-somente, a alternativa de dar as mãos ao homem para tentarem, o homem e Deus, resolver os problemas imprevistos e construir, reconstruindo a cada instante, o futuro, realidade temporal absolutamente aberta e tenebrosamente desconhecida, não somente pelo homem, mas principalmente por Deus. Eis-nos diante de uma velha heresia vestida com remendos novos. Eis-nos diante do Teísmo Aberto, cujas bases originárias deitam raízes na filosofia dialética de Heráclito, sofista grego, e em outros arranjos intelectuais da mentalidade helenística. Bases essas que têm norteado, historicamente, os conceitos dos antibíblicos e diversificados modelos de manifestação da chamada Teologia de Processo, que tem em Teillard de Chardin, Alfred Whitehead, John Cobb, alguns dos seus arautos mais apaixonados.


            A Teologia Reformada, contudo, amparada na Revelação que Deus fez de Si mesmo nas Escrituras Sagradas, continuará afirmando, sem sobressaltos, que Deus é Bom e Todo-Poderoso e santo em todos os Seus caminhos. Antes da fundação do mundo preordenou todas as coisas que acontecem e hão de acontecer com o fito maior e indesviável de promover a Sua justa e merecida glória. Assim, diante do cipoal de desgraças que a natureza tem feito recair sobre a raça humana, com a supervisão soberana do Senhor, em vez de tolamente se levantarem para questionar a Deus e legislar sobre matéria para a qual são sobejamente destituídos de adequada ciência, deveriam os homens levar em conta os seguintes aspectos: em primeiro lugar, deveriam meditar profundamente sobre a fugacidade da vida, de conformidade com a advertência de Tiago, que em sua epístola escreveu: “Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros. Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa” (Tiago 4.13,14). Em segundo lugar, deveriam os homens atentar para o caráter eminentemente pedagógico do sofrimento, muito mais instrutivo do que a bonança que, por vezes, nos induz à soberba e à ilusória sensação de que detemos o controle das nossas vidas. C. S. Lewis afirmou que “Deus nos sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas brada em nosso sofrimento: o sofrimento é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo”. Em terceiro lugar, deveriam os homens refletir, mais seriamente, sobre a inevitável realidade da morte. Alister McGrath afirma que “todos nós morreremos, e qualquer cosmovisão que não saiba lidar com a morte padece de uma deficiência fatal. O sofrimento fere com delicadeza nossa consciência e nos obriga a contemplar o fato insuportável, mas verdadeiro, da morte futura, bem como o modo pelo qual nossa perspectiva de vida encara essa idéia tão sensata”. E com a morte vem, evidentemente, a eternidade, na qual todos os homens defrontar-se-ão com Aquele que é o Juiz de toda a terra, que não toma o culpado por inocente, e que tem na justiça e na equidade as inamovíveis bases do Seu glorioso trono.


            Por fim, que os demais homens sobre quem não se abateram tragédias como as do tsunami,de Angra dos Reis e do Haiti, não presumam que são menos pecadores e supostamente mais meritórios diante de Deus. Não é esse o ensinamento da Palavra de Deus. Como disse Jesus, de conformidade com o relato feito pelo evangelista Lucas: “se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis” (Lucas 13.5b). Ao Deus Bom, Todo-Poderoso, santo, santo e santo das Escrituras Sagradas, toda honra, glória, louvor e adoração. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.

 

JOSÉ MÁRIO DA SILVA

    PRESBÍTERO

                                                                                          


 




 
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