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Paraíba, 04/03/2010
Lamentações


Lamento pela infância reprimida. Dentre muitas outras coisas, era proibido vestir bermuda, ir à praia, entrar no cinema, assistir programas de TV, olhar o circo e ouvir ou cantar qualquer outra música além da que era ouvida e cantada dentro do templo. Às vezes, eu transgredia as regras, mas o prazer sentido logo era sufocado pela pressão do meio e também pela idéia de um deus tirano, disposto a me matar por causa da última pelada no campinho da ilha.

 



Lamento pela adolescência abafada. Nessa época, meu coração já batia forte com a idéia de ser um mensageiro de Deus; o problema é que eu estava equivocado em relação à mensagem e igualmente equivocado em relação à forma de transmiti-la ao mundo. Querendo ganhar espaço dentro do sistema eclesiástico em que estava inserido, me distanciei das coisas e de gente da minha idade e envelheci por dentro e por fora. Meus fins de semana eram marcados pela cara fechada e pelas viagens a pé sob um sol causticante, dentro de um terno escuro e maior do que eu.



De vez em quando, meu espírito libertário questionava tudo, mas minhas indagações não encontravam eco nas paredes do quadrado institucional em que eu vivia. Afinal, haviam me ensinado que ouvir outros pregadores e ler outros livros além da Bíblia colocaria em risco a minha salvação eterna. Até mesmo a leitura do Livro Sagrado só podia ser feita com as lentes oferecidas pela ótica do meu clero; em outras palavras, minhas convicções legalistas eram baseadas em textos fora de seus contextos, sem levar em conta os princípios da boa hermenêutica.



Lamento pelos efeitos de coisas que preguei. Por muito tempo, meu carisma e eloqüência foram usados para propagar idéias carregadas de extremismo e de preconceito denominacional. Por onde passava, deixava uma legião de imitadores, que vivia como eu, e como eu, gritava nas noites de domingo, afirmando que os membros de todas as outras igrejas estavam condenados ao inferno.



Hoje, distante daquilo tudo, me alegra o fato de ver que eu, minha mulher e meus filhos cultivamos uma fé completamente diferente daquele evangelho-fardo.



Mas lamento que pessoas ainda insistam em me abordar com o papo de que eu preciso “voltar pra casa”. Não tem jeito! Sou como um ex-detento, que em perfeito juízo recebeu o alvará de soltura e nunca mais quer retornar à prisão. Quando abro minha boca e começo a explicar minhas razões, logo se afastam com a cara emburrada; afinal, eles aprenderam a falar, mas ainda estão longe de querer pensar e ouvir...






 
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